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Ajustes na alimentação familiar durante o tratamento de disfagia

Alimentação da família no pós-AVC

06/03/2023

O tema da II SEMANA AÇÃO AVC,  evento realizado pela ASSOCIAÇÃO AÇÃO AVC em 2022, foi  AVC - UMA DOENÇA DA FAMÍLIA.

A fonoaudióloga Bruna Dorta fala sobre a importância dos ajustes na alimentação familiar durante o tratamento de disfagia.


A alimentação é o processo responsável por manter os indivíduos nutridos e hidratados. O alimento é transportado da boca até o estômago através do ato da deglutição, que é o ato de engolir.


O que é disfagia?

O que é disfagia?
O que é disfagia?

A terapia fonoaudiológica  tem por objetivo reabilitar esses pacientes para uma alimentação segura, eficaz e eficiente.

Para isso contamos com a participação da família, que é um dos pilares nesse processo de reabilitação auxiliando nos estímulos e exercícios.

Além de estar com o paciente na preparação e na oferta da dieta por via oral.

O profissional fonoaudiólogo é responsável por:

  1. Avaliar a função de alimentação contribuindo no diagnóstico e na causa da disfagia;
  2. Avaliar a capacidade de proteção do sistema respiratório;
  3. Indicar vias alternativas de alimentação;
  4. Realiza a intervenção de forma direta e indireta com paciente através de estímulos sensoriais, táteis, gustativos, térmicos;
  5. Exercícios de força, mobilidade entre outros;
  6. Nortear equipe e família em relação às melhores atitudes acerca da alimentação.

O profissional orienta quanto à forma, temperatura e consistências ideais dos alimentos, podendo ser:

Tipos de dieta para a disfagia -
Tipos de dieta para a disfagia -


  1. Dieta líquidos-pastosos: 
    São aqueles alimentos mais liquidificados.
  2. Dieta pastosa:
    Aquele alimento que pode ser amassado ou triturado, que vai ter um volume e um peso maior.
  3. Dieta branda:
    São alimentos sólidos, que podem ser macios, secos ou mais duros.

O profissional pode auxiliar na seleção dos utensílios, como copo, colher e garfo, as posturas em relação à oferta da dieta e o comportamento facilitador na oferta dessa dieta por via oral e uso de manobras facilitadoras de modo a promover segurança na alimentação e consequentemente na saúde e na qualidade de vida desse paciente.


Qualidade de vida na disfagia

A promoção da qualidade de vida em pacientes disfágicos visa em seu atendimento oferecer principalmente suporte e orientações para os seus familiares e cuidadores, assim diminuindo riscos com alimentação, como por exemplo de broncoaspiração.

A broncoaspiração ocorre quando esse alimento líquido ou saliva penetra nas vias aéreas e podem chegar até o pulmão desse paciente.

O objetivo é permitir que o paciente esteja com alimentação segura contribuindo também para o seu estado nutricional.

A alimentação tem uma importância fundamental no tratamento da disfagia, não só para o paciente, mas para a família, impactando muito na saúde e no emocional do paciente e no ambiente familiar

A dieta deve levar em consideração:

  • A história clínica do paciente
  • Quais são as suas preferências alimentares 
  • O que ele deseja comer
  • Qual é o seu hábito alimentar
  • O que ele está acostumado a comer 
  • Como é as suas refeições do dia-a-dia 
  • Quais os horários que ele prefere comer 
  • Como é a sua rotina de vida diária 
  • Como a alimentação está inserida nessa rotina 
  • O seu estado nutricional 
  • O tipo e o grau da disfagia

Assim conseguimos selecionar a melhor consistência e adaptar essas Preparações alimentares para o paciente.

A alimentação precisa ficar de forma segura e eficiente.

Pois assim o paciente vai manter o seu estado nutricional de forma satisfatória e vai fazer a ingestão por via oral de forma segura.


Prazer alimentar e visual do prato

Alimentação e Disfagia
Alimentação e Disfagia

Manter as preparações atrativas, criativas, saborosas e adaptar as preferências alimentares do paciente e do seu ciclo familiar dentro da prescrição nutricional e da consistência que foi definida como segura é o principal desafio para os familiares.

Manter o visual do prato vai interferir muito no despertar do paciente para o prazer alimentar, à vontade de comer e como ele vai está interferindo também na deglutição.

O processo de deglutição começa na fase antecipatória.


E o que é isso significa?

É você olhar para esse prato e despertar a vontade de comer e nesse momento você já vai deglutindo a saliva e vai preparando o seu corpo para aquela refeição.

Então ao visualizar um prato onde esteja ali diferentes cores, diferentes preparações, com sabores diferentes e com temperaturas diferentes, faz com que você desperte a vontade de comer somente olhando para esse prato que tem um visual muito atrativo ele está ali em consistência pastosa.

Quando pensamos em comida pastosa, na maioria das vezes remete a não querer aquela comida pois será liquidificada,  mas olhando para o prato onde tem ali diferentes preparações da mesma consistência já desperta a vontade de comer, para saber o que é aquilo e como foi montado aquele prato diferente.

Imagina todas as preparações como: desjejum, da colação (lanche da manhã), almoço, o lanche da tarde, o jantar e a ceia é apenas uma papa, onde está ali tudo no potinho de uma coloração esbranquiçada e que não apresenta nenhum atrativo.

O ideal é que nessas preparações não seja batido tudo junto.

Separe em uma porção os legumes e as verduras, em uma outra porção o feijão e uma outra porção o arroz ou uma raiz por exemplo e uma outra porção a proteína.

Neste exemplo você já vai ter pelo menos três ou quatro porções diferentes fazendo com que o paciente tenha sabores e texturas diferentes e despertando a vontade de comer cada uma delas.

Quando no prato existem  sabores diferentes faz com que o paciente tenha mais vontade de comer e queira comer toda a porção.

Diferente de quando todo o alimento é batido junto, ficando apenas com um sabor.

Da mesma forma, o jantar parece ser uma outra sopa, com outros outros alimentos batidos, mas também está tudo junto.


Resgatar o prazer de comer

Resgatar esse prazer alimentar é muito importante no tratamento da disfagia.

Aquele paciente que precisa ficar por um tempo prolongado numa mesma consistência, ao longo desse período ele vai perdendo a  vontade de comer.

Fazendo com que assim diminua a sua ingesta da alimentação e provoca uma alteração do seu estado nutricional levando a esse paciente a uma desnutrição.

Fazer preparações atrativas e com diferentes cores no prato desperta a vontade de comer.

Podendo ser um desafio para a família, pois junto com outras preparações existe a rotina com esse paciente que muitas vezes pode ser desgastante.

Mas fazer essa preparação diferente pode auxiliar o paciente a comer melhor e  favorecendo assim um ambiente mais propenso para esse tratamento da disfagia.


Comer é um ato biopsicossocial 

A preparação do alimento pode ser diferente do cardápio da família .

O paciente pode estar com uma alimentação pastosa e o restante da família está comendo alimentos sólidos.

Mas é importante o envolvimento deste paciente no momento da refeição,

evitando assim o isolamento social e o distanciamento da família.

É importante trazer esse paciente para o momento da refeição, a alimentação é também um momento social onde ali a família se reúne e não somente para comer mas também para conversar, colocar o papo em dia e trazer esse paciente para esse momento é também inseri-lo no contexto social.

Está ali junto da sua família para aquele momento prazeroso.

É comum perceber a oferta da dieta primeiro do paciente disfágico por ele apresentar dificuldade e por apresentar uma velocidade de oferta mais devagar, levar um período maior para comer e depois a família se reunir para então comer.

O objetivo é auxiliar no resgate de um dos maiores prazeres do ser humano que é o ato de “comer”, um ato biopsicossocial, ou seja, comemos para nutrir o corpo, mas também para alimentar nossas emoções e relacionamentos sociais”

É importante fazer com que o paciente esteja no momento da refeição, junto com a sua família, pois além da refeição é um momento onde ele vai estar ali junto com os seus familiares para conversar,trocar ideias, falar sobre coisas do dia-a-dia e assim  fazendo com que o paciente esteja presente no momento das decisões da família, nos momentos de conversa, nos momentos de interação.


Cuidados com a oferta da dieta por via oral

Algumas orientações básicas para oferta dessa dieta por via oral 

1 - Paciente precisa estar sentado e acordado:

Para receber o alimento pela boca é necessário acomodar esse paciente numa cadeira, poltrona ou se o paciente estiver restrito a cama fazer com que a sua elevação esteja acima de 60 graus, para que assim ele possa está sentado para receber a comida de forma segura.

2 - Ofertar em pequenas colheradas:

Para que o paciente tenha um melhor controle do alimento dentro da boca

3 - Aguardar a deglutição para a próxima colherada:

Evite com que a velocidade da oferta seja muito rápida para que o paciente não canse ao final dessa refeição.

4 - Evitar distrações

5 - Evite conversas paralelas:

Principalmente quando o paciente estiver com alimentos dentro da boca.

6- Aguardar pelo menos 30 minutos após a refeição para deitar o paciente

O paciente pode ter orientações mais específicas, como por exemplo: uso de espessantes, alguma adaptação na consistência da dieta ou até mesmo o uso de manobras facilitadoras durante a deglutição.

A relação familiar é um aspecto fundamental no tratamento, a dificuldade do paciente em se alimentar impacta muito na vida da família em todos os aspectos.

Ao ver seu familiar com essa dificuldade traz um sentimento muito forte de fragilidade.

A assistência multidisciplinar é fundamental para as famílias e para o sucesso do tratamento.

Então poder contar com assistência multidisciplinar do médico, enfermeiro fonoaudiólogo, fisioterapeuta e nutricionista é fundamental para a família ter um melhor resultado durante o processo terapêutico.


Bruna Dorta - fonoaudióloga
Bruna Dorta - fonoaudióloga

*Este vídeo faz parte da programação da II SEMANA AÇÃO AVC (evento destinado a pacientes e familiares de AVC, promovido pela Associação AÇÃO AVC).